A presença constante de refrigerantes, salgadinhos de pacote e outros itens ultraprocessados na dieta das famílias brasileiras tem gerado um alerta crescente entre autoridades de saúde. O epidemiologista Carlos Augusto Monteiro, referência internacional no estudo da nutrição, defende que o Estado adote medidas drásticas para conter o consumo desses produtos, sugerindo uma estratégia de taxação e regulação semelhante à aplicada historicamente contra a indústria do tabaco.
O debate ganha força à medida que evidências científicas consolidam a relação entre o consumo frequente desses alimentos e o desenvolvimento de diversas patologias crônicas. A proposta central é transformar o ambiente alimentar, tornando produtos nocivos menos acessíveis e mais caros, enquanto se promove o acesso a opções saudáveis.
Paralelo entre o consumo de tabaco e a dieta moderna
Para fundamentar sua tese, Carlos Augusto Monteiro utiliza o sucesso das políticas públicas de controle do tabagismo como parâmetro. O especialista recorda que, décadas atrás, a prevalência de fumantes em cidades como São Paulo era significativamente superior, atingindo cerca de 70% da população em determinados grupos etários, número que hoje caiu para menos de 10%.
Essa redução drástica não ocorreu apenas por meio de campanhas de conscientização sobre os riscos de doenças como o câncer de pulmão. O sucesso da estratégia baseou-se em um tripé de ações: aumento de impostos, restrição de publicidade e advertências claras nos rótulos, medidas que, segundo o pesquisador, poderiam ser adaptadas para o setor alimentício.
A composição química e os riscos à saúde pública
Os alimentos ultraprocessados, definidos pela equipe de Monteiro, diferem dos alimentos processados comuns por serem formulações industriais complexas. Eles são criados a partir de ingredientes isolados — como gorduras, açúcares, amidos e proteínas — e combinados com uma vasta gama de aditivos cosméticos, como corantes, aromatizantes e emulsionantes.
O objetivo dessa engenharia alimentar é conferir uma textura e um sabor altamente atraentes, o que frequentemente leva ao consumo excessivo. A ciência já associa essa ingestão regular a uma série de agravos à saúde, incluindo:
- Doenças cardiovasculares
- Insuficiência renal crônica
- Problemas respiratórios
- Perturbações da saúde mental
Desafios na implementação de políticas alimentares
Embora a comparação com o tabaco seja tecnicamente útil, o epidemiologista reconhece que a regulação alimentar impõe desafios distintos. Diferente do cigarro, que pode ser totalmente eliminado da rotina de um indivíduo, a alimentação é uma necessidade biológica básica e indispensável para a sobrevivência humana.
O especialista enfatiza que, ao contrário do tabagismo, o combate aos ultraprocessados exige uma estratégia de substituição. O foco do Estado deve ser garantir que a população tenha acesso facilitado a alimentos frescos e naturais, tornando a transição nutricional viável. Para mais informações sobre as diretrizes alimentares, consulte o Ministério da Saúde.
Fonte: terra.com.br


































