Uma tendência crescente nas redes sociais tem atraído adolescentes e jovens adultos sob a promessa de transformar a aparência masculina em um padrão estético idealizado. Conhecido como looksmaxxing, o movimento incentiva a busca obsessiva por músculos definidos, mandíbulas marcadas e um percentual de gordura corporal extremamente baixo. Embora a prática seja apresentada como uma forma de aprimoramento pessoal, especialistas alertam que os métodos utilizados para alcançar esses resultados são frequentemente perigosos e podem desencadear graves prejuízos físicos e mentais.
O fenômeno é difundido principalmente por influenciadores vinculados à chamada machosfera, um conjunto de comunidades digitais que defende modelos rígidos de masculinidade. A lógica central dessas plataformas sustenta que a aparência física é o determinante principal para o sucesso amoroso, profissional e social. Esse discurso, muitas vezes permeado por visões extremistas, atrai jovens que se sentem isolados ou inseguros, oferecendo um falso senso de pertencimento em troca da adesão a comportamentos de risco.
A ascensão do looksmaxxing e a pressão estética
Os produtores de conteúdo que promovem essa tendência sugerem técnicas que variam de hábitos saudáveis, como musculação e cuidados com a pele, até práticas extremas e sem comprovação científica. Entre as recomendações mais preocupantes estão o uso indiscriminado de substâncias anabolizantes, cirurgias invasivas de alongamento ósseo e o chamado bone smashing. Nesta última prática, os adeptos golpeiam repetidamente os próprios ossos da face na tentativa de remodelar a mandíbula, ignorando os danos estruturais que tais impactos podem causar.
Um estudo publicado em 2025 na revista Sociology Health & Illness analisou mais de 8 mil comentários em fóruns dedicados ao tema. A pesquisa revelou um ambiente hostil, onde participantes são frequentemente bombardeados por insultos caso não atinjam o padrão de virilidade esperado. Em vez de apoio, esses espaços incentivam a autolesão e a medicalização descontrolada, criando um ciclo vicioso de insatisfação corporal e sofrimento psicológico.
Impactos na saúde mental e auto-objetificação
O psiquiatra Luiz Gustavo Zoldan, do Einstein Hospital Israelita, destaca que a busca pela aparência ideal torna-se patológica quando o pensamento sobre o corpo se torna excessivo, gerando vergonha, ansiedade e isolamento. Quando o indivíduo passa a se enxergar apenas como um objeto de avaliação constante, ocorre a auto-objetificação. Esse processo fragiliza a autoestima, tornando-a dependente de validações externas voláteis, como curtidas e comentários em redes sociais.
A exposição contínua a imagens inatingíveis aumenta significativamente os fatores de risco para transtornos alimentares, como anorexia e bulimia. O cérebro, programado para realizar comparações sociais, é sobrecarregado pelo volume de dados digitais, o que pode levar a quadros de depressão. A busca por respostas simples para dilemas complexos, oferecida por grupos extremistas, acaba por aprisionar o jovem em uma narrativa que desvaloriza sua identidade em prol de uma estética inalcançável.
Riscos físicos e o uso de substâncias anabolizantes
Além dos danos psicológicos, o uso de hormônios sem acompanhamento médico representa uma ameaça direta à vida. A endocrinologista Andréa Messias Britto Fioretti, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, reforça que não existe dose segura para o uso estético de esteroides, insulina ou hormônio do crescimento. Essas substâncias, quando utilizadas para fins de ganho muscular, provocam efeitos colaterais severos e irreversíveis.
Os riscos cardiovasculares incluem o aumento do miocárdio, conhecido como cardiomiopatia hipertrófica, e alterações nos níveis de colesterol que elevam perigosamente a probabilidade de infarto. Além disso, há evidências de que o uso dessas substâncias pode causar atrofia do córtex cerebral, resultando em prejuízos cognitivos e de memória. A busca pelo corpo perfeito, portanto, coloca em xeque não apenas a saúde mental, mas a integridade biológica do indivíduo a longo prazo.
Fonte: terra.com.br

































