O cenário do futebol brasileiro tem sido palco de intensos debates sobre a gestão financeira dos clubes, especialmente no que tange ao uso de cartões corporativos. O que deveria ser uma ferramenta de agilidade nos pagamentos institucionais, frequentemente se transforma em foco de controvérsias e denúncias de má gestão, levantando questões sobre a transparência e o controle de recursos. A recorrência de casos de uso indevido tem impulsionado uma discussão necessária sobre a implementação de políticas mais rigorosas e mecanismos de fiscalização eficazes.
Recentemente, o noticiário esportivo destacou diversos episódios envolvendo a utilização inadequada desses cartões por ex-dirigentes de grandes clubes. As denúncias apontam para o custeio de despesas pessoais, como viagens, restaurantes, itens de luxo e serviços diversos, sem qualquer relação com as atividades esportivas. Tais ocorrências, que já incluíram até gastos em estabelecimentos de entretenimento adulto em casos passados, evidenciam uma falha sistêmica na supervisão financeira.
Escândalos e a necessidade de maior controle nos cartões corporativos
A série de escândalos recentes sublinha a urgência de uma revisão profunda nas práticas de gestão dos clubes. Embora os cartões corporativos sejam considerados ferramentas indispensáveis em um mundo cada vez mais digitalizado, o problema reside na ausência de regulamentação clara e na fiscalização deficiente de seu uso. Especialistas em governança e dirigentes de clubes concordam que a ferramenta em si não é a questão, mas sim a forma como ela é administrada e auditada.
Apesar da existência de departamentos de compliance e conselhos fiscais em algumas agremiações, o mau uso dos cartões corporativos persistiu. Isso sugere que a mera presença de normas internas não é suficiente; é fundamental que haja uma fiscalização ativa e independente para garantir o cumprimento das políticas de conduta. A criação de uma política de uso de cartões corporativos em um grande clube, por exemplo, ocorreu apenas após a repercussão de casos de desvio.
Quem utiliza e as finalidades dos cartões corporativos
A maioria dos clubes que se manifestaram sobre o tema indicou que os cartões são disponibilizados para diretores, gerentes, supervisores e profissionais de diversas áreas. Isso inclui setores como futebol, categorias de base, financeiro, patrimônio, departamento médico e nutrição. Um clube, por exemplo, informou que seu principal dirigente utiliza o cartão para despesas institucionais como alimentação, hospedagem e transporte, com todas as despesas devidamente justificadas.
As principais finalidades para o uso dos cartões incluem despesas em viagens, como transporte, alimentação e gastos emergenciais. Também são utilizados para o registro de atletas, aquisição de softwares e serviços digitais que demandam esse método de pagamento. É consenso entre os clubes que o uso para compras pessoais é estritamente proibido, reforçando a natureza institucional da ferramenta.
Desafios na fiscalização e a importância do compliance
A eficácia das regras internas depende diretamente de uma fiscalização rigorosa. Especialistas apontam que o caráter político das gestões em clubes de futebol pode ser um fator que contribui para os desvios. Muitas vezes, os profissionais encarregados de fiscalizar são indicados pelos próprios dirigentes, o que pode comprometer a independência dos controles.
Uma prática recomendada para evitar fraudes é o controle duplo ou triplo das despesas, garantindo uma responsabilidade compartilhada e evitando que a aprovação fique concentrada em uma única pessoa. Embora os valores envolvidos com cartões de crédito representem uma fração pequena dos gastos totais de um clube de elite, a falta de controle sobre essas despesas menores não é justificável, segundo especialistas em conformidade.
A Confederação Brasileira de Futebol (CBF), por meio de seu Regulamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira, recomenda a implementação de um Programa de Integridade e Conformidade nos clubes. Este programa deve abranger, no mínimo, um código de ética e conduta, controles internos e um canal de denúncias. No entanto, essa é uma sugestão, e não uma obrigação, o que deixa a critério de cada agremiação a adoção de tais medidas.
Alternativas e boas práticas na gestão de pagamentos
Diante dos desafios, alguns clubes têm buscado soluções inovadoras para a gestão de pagamentos. Um exemplo é a adoção de plataformas que permitem o reembolso online para compras de menor valor, enquanto despesas maiores são gerenciadas por meio de contas digitais. Nesse modelo, os colaboradores recebem um valor estimado para suas necessidades e devem apresentar os comprovantes para justificar os gastos.
Essa abordagem tem permitido a alguns clubes reduzir drasticamente o número de cartões corporativos em circulação, concentrando o uso em um único cartão para o departamento financeiro, destinado a pagamentos que não aceitam outros métodos, como serviços por assinatura. Tais iniciativas demonstram um esforço para aprimorar a transparência e o controle financeiro, minimizando os riscos de uso indevido e fortalecendo a governança interna.
Para mais informações sobre programas de integridade, consulte o Guia de Programas de Integridade.
Fonte: netvasco.com.br

































