A recente postura do presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, tem provocado um intenso debate nacional sobre os limites do poder estatal e a ética na comunicação governamental. Ao divulgar vídeos nos quais aparece caminhando entre corpos de supostos guerrilheiros mortos em operações militares, o mandatário rompeu com protocolos tradicionais, adotando uma narrativa de força que divide a opinião pública e atrai críticas severas de setores da oposição e de órgãos de direitos humanos.
As imagens, que circularam após operações em Guaviare e La Guajira, foram interpretadas por analistas como uma consolidação da promessa de campanha de Espriella: uma política de segurança linha-dura. Enquanto apoiadores veem na exibição dos corpos uma demonstração necessária de autoridade contra o crime, críticos apontam para uma perigosa banalização da violência, comparando a estratégia a práticas de outros líderes regionais que utilizam a exibição pública de criminosos como ferramenta de intimidação.
A construção da imagem de força e a ruptura com o antecessor
Desde que assumiu o cargo, Abelardo de la Espriella tem se distanciado da estratégia de negociação com grupos armados adotada por seu antecessor, Gustavo Petro. O atual presidente utiliza símbolos de poder, como o uso constante de coletes à prova de balas e a retórica contra o chamado “narcoterrorismo”, para projetar uma imagem de invulnerabilidade e controle absoluto sobre a ordem pública.
Especialistas em ciência política, como Carlos Cortés, observam que a exibição dos cadáveres não é um ato isolado, mas uma performance calculada. A intenção seria transmitir uma mensagem clara de que o Estado não se intimida diante de insurgentes, buscando atender a uma parcela significativa da população colombiana que elegeu a segurança como sua principal prioridade.
Controvérsia jurídica e reações institucionais
A repercussão negativa das publicações chegou ao sistema judiciário. Na última quinta-feira (10/09), um juiz em Bogotá determinou a ocultação temporária das imagens, conforme reportado pela agência AFP. A medida atende a preocupações sobre a dignidade humana e o respeito aos mortos, mesmo em contextos de conflito armado.
A Defensora do Povo, Iris Marín, foi uma das vozes mais contundentes ao criticar a postura do governo. Segundo ela, o Estado não deve competir em crueldade, independentemente das circunstâncias. Em contrapartida, o ministro do Interior, Rodrigo Lara Restrepo, defendeu a atuação do governo, argumentando que o Estado cumpre seu dever constitucional de combater o terrorismo e que a comparação com gangues seria um erro de interpretação.
O precedente regional e os riscos para a sociedade
O fenômeno da exibição de força não é exclusivo da Colômbia. Analistas como Elizabeth Dickinson, do International Crisis Group, apontam que governos nas Américas têm recorrido frequentemente a esse tipo de narrativa. O exemplo de Nayib Bukele em El Salvador, que exibe membros de gangues subjugados, é frequentemente citado como uma referência para essa nova onda de comunicação política punitiva.
Contudo, o contexto colombiano, marcado por mais de 60 anos de conflito, impõe riscos adicionais. A ênfase no número de mortos e a espetacularização da violência podem, segundo especialistas, reabrir traumas profundos e, historicamente, preceder períodos de aumento na violência estatal e de riscos para civis inocentes, que acabam sendo afetados pela narrativa de confronto permanente.
Fonte: terra.com.br

































