A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, atraiu um público expressivo no Auditório da Matriz durante a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) em 2026. A participação da magistrada, mediada por Paula Miraglia, mergulhou em temas cruciais para a sociedade brasileira, abordando a relevância do voto, as persistentes disparidades de gênero e a intrínseca conexão entre a arte e o direito. A conversa proporcionou momentos de reflexão profunda e também de leveza, com a ministra compartilhando anedotas que ilustraram suas perspectivas sobre a vida pública e a cidadania.
A presença de Cármen Lúcia na Flip também marcou a divulgação de seu novo livro, Pela Mão do Povo – Democracia e Voto no Brasil, escrito em colaboração com a historiadora Heloisa M. Starling e a pesquisadora Nayara Corrêa Henriques Pinto. A obra oferece um panorama histórico do voto no país, desde o período imperial até o movimento Diretas Já, consolidando a importância do sufrágio na construção democrática brasileira.
A importância do voto e da educação cívica
No centro de sua fala, a ministra Cármen Lúcia reforçou a importância inegociável do voto como ferramenta fundamental para a democracia. Ela criticou veementemente as tentativas de tornar o voto facultativo no Brasil, argumentando que a renúncia a esse direito não afeta apenas o indivíduo, mas desrespeita a luta de gerações passadas que batalharam por essa liberdade. A ministra sublinhou que os jovens, em particular, muitas vezes não compreendem o valor da liberdade por nunca terem experimentado sua ausência, e que a falta de algo é o que verdadeiramente nos ensina a valorizá-lo.
A educação de qualidade foi apresentada como a base para a construção de um país mais justo e democrático. Cármen Lúcia chegou a afirmar que o papel do professor é ainda mais vital do que o de um juiz, destacando a capacidade transformadora da sala de aula na formação de cidadãos conscientes. A ministra também conectou a importância do voto à redução da disparidade de gênero em cargos públicos, a apenas 70 dias das eleições, enfatizando que o preconceito social ainda é forte e que a educação é o caminho para superá-lo.
Humor e percepções sociais em debate
A mesa na Flip foi permeada por momentos de descontração, com a ministra compartilhando histórias pessoais que revelaram percepções sociais e a complexidade da vida pública. Uma das anedotas que arrancou risadas do público foi seu encontro com uma senhora no mercado. A mulher a abordou, confundindo-a inicialmente, e depois de pedir uma foto, comentou que Cármen Lúcia era “muito mais simpática” que a ministra e que “jamais sairia do mercado carregando uma sacola de tomate”.
Sobre o episódio, a ministra proferiu uma de suas frases mais impactantes do evento: “Por isso que eu digo: não tenho medo da inteligência artificial, tenho medo da desinteligência natural”. Em outro momento, ela narrou a situação em que um jardineiro, ao vê-la trocando uma calha em sua casa em Brasília, a alertou para sair dali, pois “ouviu dizer que é casa de autoridade”. A ministra concluiu, com ironia, que para o jardineiro, ou ela era uma autoridade, ou era uma mulher, evidenciando a persistência de estereótipos.
A essência libertária da arte e o direito
Cármen Lúcia dedicou parte de sua fala à profunda relação entre a arte e o Direito, um tema que a acompanha ao longo de sua vida. Para a ministra, a arte possui um poder salvador para a humanidade, sendo a literatura e a música elementos centrais em sua trajetória pessoal. Ela descreveu a arte como “libertária por sua essência”, capaz de mostrar que a vida não deve ser submetida à censura. Essa perspectiva ressalta a importância da expressão cultural como um pilar da liberdade individual e coletiva, essencial para o florescimento de uma sociedade democrática.
Democracia: um cultivo diário e a coragem da resistência
Ao ser questionada sobre os riscos à democracia, a ministra Cármen Lúcia optou por uma metáfora que ilustrou a fragilidade e a resiliência do sistema. Ela comparou a democracia a uma planta que exige cuidado e atenção diários, enquanto as “ervas daninhas” – as ameaças e desafios – estão sempre presentes, tentando retornar. Apesar dos obstáculos, a ministra expressou otimismo em relação ao futuro do Brasil, enfatizando a necessidade de uma “coragem permanente da resistência”. Essa coragem, segundo ela, é o que garantirá a permanência e o fortalecimento da democracia no país, um compromisso contínuo de todos os cidadãos.
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Fonte: terra.com.br


































