Quando Luis de la Fuente assumiu o comando da seleção espanhola em dezembro de 2022, ele enfrentou um ceticismo considerável. Conhecido principalmente como “o treinador da sub-20”, sua nomeação para substituir o midiático Luis Enrique gerou dúvidas sobre sua capacidade de liderar a equipe principal. No entanto, sua abordagem singular, que transformou a dinâmica da seleção em algo mais próximo de um clube, provou ser um fator decisivo para o recente sucesso da Espanha, culminando em títulos e finais de grandes torneios.
De la Fuente, um funcionário com quase uma década de serviços prestados à Federação Espanhola (RFEF), havia percorrido todos os degraus da formação de jogadores. Essa trajetória lhe conferiu um conhecimento profundo dos atletas, muitos dos quais ele havia treinado desde as categorias de base. Essa familiaridade e a confiança mútua se tornaram a espinha dorsal de sua gestão, diferenciando-o drasticamente de seus antecessores e redefinindo o conceito de uma seleção nacional.
A ascensão de um treinador subestimado
A chegada de Luis de la Fuente ao cargo de treinador da seleção espanhola foi marcada por uma percepção inicial de que ele era uma figura de menor projeção. Em contraste com seu antecessor, Luis Enrique, que possuía um currículo recheado de títulos e uma forte presença midiática, De la Fuente era visto como um técnico de base, sem o mesmo brilho ou reconhecimento público. Essa visão, contudo, subestimava sua vasta experiência e o impacto que ele teria na equipe.
Sua longa passagem pelas categorias de base da RFEF, onde trabalhou com diversas gerações de talentos, permitiu-lhe desenvolver uma compreensão íntima do futebol espanhol em seus níveis mais fundamentais. Essa bagagem, embora inicialmente vista como uma desvantagem, logo se revelaria um trunfo inestimável, moldando uma filosofia de trabalho única para a seleção principal.
A construção de laços desde as categorias de base
Um dos pilares da gestão de Luis de la Fuente é a profunda conexão que ele estabeleceu com muitos de seus jogadores muito antes de eles alcançarem o estrelato profissional. Essa relação de confiança é um diferencial, pois o treinador não apenas os observou de longe, mas os orientou diretamente em momentos cruciais de suas carreiras. Essa proximidade se traduz em um ambiente de segurança e lealdade dentro do grupo.
Diversos atletas que hoje compõem a seleção principal passaram pelas mãos de De la Fuente em torneios juvenis e olímpicos. Por exemplo, oito dos convocados para a Copa do Mundo estiveram com ele na campanha da medalha de prata olímpica em Tóquio, em 2021. Nomes como Unai Simón, Eric García, Marc Cucurella, Mikel Merino, Martín Zubimendi, Pedri, Mikel Oyarzabal e Dani Olmo são exemplos dessa continuidade. A relação se estende ainda mais, com jogadores como Rodri e Ferran Torres tendo sido campeões europeus sub-19 sob seu comando.
O modelo de clube aplicado à seleção nacional
A Espanha, sob a liderança de Luis de la Fuente, opera de uma maneira que se assemelha mais à gestão de um grande clube do que a uma seleção tradicional. Em vez de montar a equipe exclusivamente com base no desempenho recente dos jogadores em seus clubes, De la Fuente prioriza a manutenção de uma espinha dorsal e a confiança em atletas que ele conhece profundamente. Essa abordagem permite uma estabilidade e uma identidade de jogo que são raras no cenário internacional.
A seleção mantém um modelo de jogo transversal, que é ensinado e aprimorado desde as categorias inferiores. Isso significa que os jogadores crescem dentro dos mesmos princípios táticos e chegam à equipe principal já familiarizados com o que se espera deles. Essa continuidade não só facilita a adaptação, mas também cria um ambiente onde a confiança prevalece, mesmo em momentos de baixa performance individual.
Confiança e aposta em talentos emergentes
A filosofia de Luis de la Fuente se manifesta na forma como ele gerencia o elenco, oferecendo apoio e oportunidades mesmo quando outros treinadores poderiam hesitar. Casos como o de Rodri, que manteve seu espaço na seleção apesar de uma lesão grave e um período de menor rendimento, ou Alex Baena, que foi convocado e titular mesmo após uma temporada abaixo do esperado em seu clube, ilustram essa confiança.
Além disso, De la Fuente não hesita em apostar em novos talentos, mesmo aqueles que saltam etapas. Lamine Yamal, por exemplo, estreou diretamente na seleção principal, uma aposta pessoal do treinador que reconheceu seu potencial. Da mesma forma, Gavi, após um ciclo de lesões, continuou sendo uma peça fundamental no grupo, demonstrando a crença do técnico em seus jogadores. Essa abordagem fomenta um ambiente onde os atletas se sentem valorizados e motivados a entregar seu melhor.
Resultados e a visão de longo prazo para o futebol espanhol
A gestão de Luis de la Fuente também se destaca por sua capacidade de conduzir a seleção sem as pressões históricas que frequentemente polarizam o futebol espanhol entre os gigantes Real Madrid e Barcelona. Sua carreira, não vinculada a nenhum dos dois clubes, permite uma visão mais imparcial e focada no desenvolvimento do talento nacional como um todo. A ausência de representantes do Real Madrid em uma convocação para a Copa do Mundo é um exemplo claro dessa independência.
Essa estrutura, que combina uma espinha dorsal consolidada, um modelo de jogo consistente e uma profunda confiança entre treinador e jogadores, tem rendido frutos significativos. Em 2024, a Espanha conquistou o título da Eurocopa, e dois anos depois, alcançou a final da Copa do Mundo. Esses resultados não apenas validam a abordagem de De la Fuente, mas também solidificam uma visão de longo prazo para o sucesso do futebol espanhol no cenário internacional. Para mais informações sobre o futebol espanhol, visite o site da RFEF.
Fonte: uol.com.br


































