Todos os anos, no primeiro sábado após 15 de setembro, a cidade de Munique, capital da Baviera, na Alemanha, se prepara para um dos eventos mais emblemáticos do mundo. Exatamente ao meio-dia, o prefeito local cumpre um ritual que marca o início da Oktoberfest: com um martelo de madeira, ele introduz uma torneira em um barril de cerveja, proferindo o grito “O’zapft is!” (Já está aberta!). Este momento solene e festivo dá o pontapé inicial para 12 salvas de canhão e para o maior festival folclórico do mundo, atraindo milhões de visitantes que celebram as ricas tradições bávaras.
A Oktoberfest, que em 2025 atraiu cerca de 6,5 milhões de pessoas ao longo de 16 dias, é uma explosão de cultura, gastronomia e, claro, cerveja. No Theresienwiese, o Campo de Teresa, homens em lederhosen e mulheres em dirndls desfrutam de um gigantesco parque de diversões, tendas enormes que servem rios de cerveja e mais de 1,2 milhão de pretzels bávaros. Mas a origem dessa festa grandiosa remonta a mais de dois séculos, a um evento surpreendente: um casamento real.
O Casamento Real que Deu Início à Oktoberfest
Em 1810, a Europa estava sob a sombra de Napoleão Bonaparte, e a Alemanha ainda era um mosaico de reinos e ducados. Foi nesse cenário que o príncipe herdeiro Luís da Baviera, um fervoroso defensor do incipiente nacionalismo germânico, buscou uma união estratégica. Ele escolheu a princesa Teresa de Saxe-Hildburghausen, uma decisão que, embora desprovida de paixão pessoal, era vista como vantajosa para o futuro do recém-proclamado reino da Baviera.
O casamento, celebrado em 17 de outubro, rompeu com as tradições aristocráticas. Em vez de uma cerimônia privada, o povo foi convidado para uma festa descomunal de cinco dias. A cidade foi iluminada, óperas e bailes gratuitos foram oferecidos, e mesas com comida e cerveja foram custeadas pelo rei em praças e tavernas. Desfiles infantis com trajes típicos de regiões recém-anexadas, como a Francônia e a Suábia, foram organizados, com o objetivo de fomentar um senso de identidade nacional compartilhada entre comunidades culturalmente distintas. A celebração culminou com uma corrida de cavalos no campo fora das muralhas da cidade, que mais tarde seria batizado de Theresienwiese em homenagem à princesa.
A Evolução do Festival e a Mudança para Setembro
O sucesso estrondoso daquele casamento real levou à decisão de repetir a festa no ano seguinte. Em 1811, uma exposição agrícola foi adicionada, uma tradição que persiste até hoje, ocorrendo a cada três anos. As primeiras barracas de cerveja e o primeiro carrossel surgiram em 1818, marcando o início da transformação do evento em um festival popular.
Em 1872, uma mudança significativa ocorreu: o festival foi transferido de outubro para setembro. A decisão foi tomada após reclamações sobre o clima, pois os dias de setembro são mais longos, menos chuvosos e as temperaturas, mais agradáveis. Essa alteração consolidou o formato da Oktoberfest como a conhecemos hoje, uma celebração que, ao longo das décadas, cresceu em escala e popularidade, atraindo visitantes de todo o mundo para vivenciar a cultura bávara. Para mais detalhes sobre a rica história do evento, pode-se consultar fontes confiáveis sobre o tema.
Tempos de Guerra e Crise: As Suspensões e o Uso Político
A história da Oktoberfest não foi linear, sendo marcada por interrupções significativas. Em 1914, com o início da Primeira Guerra Mundial, a festa foi suspensa por quatro anos, refletindo a escassez de suprimentos e o clima de desânimo. Após a queda da monarquia bávara em 1918 e a fundação da Alemanha como estado-nação moderno, o festival retornou em uma versão reduzida, a “Kleineres Herbstfest” (Pequena Festa de Outono), até 1921, quando o nome original e as grandes tendas foram restabelecidos.
A hiperinflação de 1923 forçou outro cancelamento, mas a tradição persistiu até a ascensão de Adolf Hitler em 1933. O regime nazista proibiu judeus de trabalhar no festival e, em 1938, rebatizou-o como “Großdeutsches Volksfest” (Festa Popular da Grande Alemanha), utilizando-o como vitrine de uma identidade étnica excludente. A cerveja e o folclore, que antes uniam os bávaros, foram pervertidos para traçar linhas entre os que pertenciam e os que não pertenciam à nação. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, a Oktoberfest foi novamente suspensa, não ocorrendo entre 1939 e 1945.
O Renascimento Pós-Guerra e a Tradição Atual
O fim da Segunda Guerra Mundial deixou Munique em ruínas e com o estigma de ter sido a “capital do movimento” nazista. Nos anos seguintes, o festival sobreviveu como a “Feira de Outono”, uma versão limitada e sujeita a severas restrições impostas pelo governo militar americano, que proibia cerveja de alto teor alcoólico e exigia cartões de racionamento para alimentos.
Somente em 1949, com a autorização da cerveja de teor alcoólico normal, a Oktoberfest recuperou seu nome e sua grandiosidade, após uma década de ausência. Mais do que discursos políticos, foram os trajes típicos, a gastronomia e a música folclórica que ajudaram a Baviera a reconstruir seu tecido social. O ritual do “O’zapft is!”, com o prefeito abrindo o primeiro barril, foi formalmente estabelecido em 1950, quando o então prefeito Thomas Wimmer precisou de 19 golpes para a tarefa. Desde então, cada novo prefeito busca superar essa marca, perpetuando uma tradição que começou com um casamento real e se tornou um símbolo global de celebração e cultura.
Fonte: terra.com.br

































