A construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, uma das maiores obras de engenharia do mundo, entre o Brasil e o Paraguai, desencadeou uma das mais ambiciosas e complexas operações de salvamento de fauna já registradas na América Latina. Conhecida como Mymba Kuéra, que significa “os animais” em guarani, a iniciativa mobilizou centenas de profissionais em uma corrida contra o tempo para resgatar milhares de seres vivos ameaçados pela inundação do gigantesco reservatório. Este esforço pioneiro não apenas salvou uma vasta quantidade de animais, mas também estabeleceu novos paradigmas para a conservação da biodiversidade em grandes projetos de infraestrutura.
O engenheiro agrônomo paraguaio Darío Pérez Chena, então com 43 anos, esteve à frente dessa empreitada histórica em 1982. Sua liderança foi crucial para coordenar uma equipe dedicada a salvar desde macacos e tatus até serpentes e tarântulas, em um território que seria submerso para dar lugar ao lago de Itaipu. A operação, que se estendeu por meses, demonstrou a capacidade de mobilização e a importância da consciência ambiental em um período de crescente debate sobre o impacto humano na natureza.
O Desafio Pioneiro da Itaipu Binacional
A Usina de Itaipu, concebida por um acordo entre Brasil e Paraguai, representou um marco na engenharia mundial. Com mais de 7 km de comprimento, tornou-se a maior hidrelétrica do planeta na época de sua conclusão. Para viabilizar a obra, foi necessário desviar temporariamente o rio Paraná e, posteriormente, inundar uma vasta área de aproximadamente 1.350 km², formando o reservatório.
Darío Pérez Chena, que havia se formado no Paraguai e feito pós-graduação na Alemanha, assumiu a responsabilidade pela fauna e flora terrestre na região de Itaipu. Sua experiência como diretor do Serviço Florestal Nacional do Paraguai o qualificou para o desafio de proteger a biodiversidade local. A mudança para Puerto Stroessner (atual Ciudad del Este), na fronteira com o Brasil, marcou o início de um trabalho que definiria as bases para a proteção ambiental na região, com reflexos que perduram até hoje.
A Riqueza da Biodiversidade Ameaçada
A área destinada ao reservatório de Itaipu era parte integrante da Floresta Atlântica do Alto Paraná, um ecossistema reconhecido como um dos mais ricos em biodiversidade do mundo. Este habitat abriga uma impressionante variedade de vida, com cerca de 20 mil espécies de plantas e pelo menos 2 mil espécies de animais, incluindo grandes felinos como onças-pardas e onças-pintadas, além de aproximadamente 400 espécies de aves.
A construção da usina coincidiu com uma nova era de conscientização ecológica, impulsionada pela Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo em 1972. Este evento global elevou o meio ambiente a uma questão central, e o resgate da fauna de Itaipu atraiu a atenção internacional. A questão era se seria possível salvar, ao menos em parte, esse tesouro natural. Brasil e Paraguai assumiram a tarefa, e no lado paraguaio, o projeto foi batizado de Mymba Kuéra, um nome que ressoava com a cultura local e a urgência da missão.
Preparação e Execução do Resgate
Os preparativos para a operação de resgate duraram vários anos e envolveram um inventário detalhado de toda a área a ser inundada. Botânicos, zoólogos e engenheiros florestais trabalharam em conjunto para registrar cada avistamento e identificar animais por meio de rastros e outros sinais. Esse levantamento minucioso não apenas forneceu a base para o salvamento, mas também contribuiu significativamente para o conhecimento da fauna paraguaia, oferecendo oportunidades de aprendizado para estudantes de diversas áreas.
A equipe de resgate era composta por 189 pessoas, lideradas por Pérez Chena, e contava com o apoio de mais 150 profissionais, incluindo médicos, enfermeiros e pilotos de helicóptero. Os socorristas foram cuidadosamente selecionados, priorizando jovens com boa aptidão física, e receberam treinamento de técnicos brasileiros e internacionais. A comunicação era feita por rádios antigos, e as lanchas utilizadas para o deslocamento eram equipadas com tecnologia da época, que hoje seria considerada rudimentar, mas que se mostrou eficaz para a magnitude da tarefa. A BBC News Brasil, por exemplo, frequentemente reporta sobre iniciativas de conservação.
A Corrida Contra a Água e o Legado do Resgate
Em 13 de outubro de 1982, as comportas do canal de desvio foram fechadas, e a inundação da área começou. O resgate dos animais teve início imediatamente, com o número de salvamentos crescendo exponencialmente, chegando a mais de 600 em um único dia. A operação focou principalmente em animais que não sabiam nadar, como macacos, que, apesar de saberem nadar, podiam se afogar por exaustão, e diversas espécies de aves que ficavam presas em galhos.
Os trabalhadores foram treinados para lidar com animais agressivos e espécies venenosas, como serpentes e tarântulas. Cada lancha era equipada com soro antiofídico para emergências, dada a toxicidade de algumas víboras. A operação de resgate se estendeu até 10 de janeiro de 1983, resultando no salvamento de 27.150 animais no lado paraguaio, sendo 45% deles serpentes, muitas delas venenosas. No lado brasileiro, onde a floresta era menor, cerca de 11 mil animais foram resgatados, totalizando quase 39 mil salvamentos, um recorde sul-americano até hoje.
Os animais resgatados foram encaminhados para diversas destinações: muitos foram transportados para mais de 100 mil hectares de áreas protegidas dentro do mesmo ecossistema da Mata Atlântica. Centenas de víboras foram enviadas ao Instituto Butantan, em São Paulo, para pesquisa e produção de soros. Tatus do Alto Paraná, conhecidos por sua resistência à lepra, foram inclusive enviados a Tóquio para estudos científicos. Apesar do sucesso da operação, Pérez Chena reconhece que muitos animais, especialmente insetos e aqueles que viviam sob a terra, não puderam ser salvos, tornando-os parte da matéria orgânica do novo ecossistema aquático. A Mymba Kuéra, com seus acertos e desafios, permanece como um testemunho da complexidade e da importância da coexistência entre o desenvolvimento humano e a preservação da natureza.
Fonte: terra.com.br

































