A realização da Copa do Mundo feminina no Brasil, programada para ocorrer entre 24 de junho e 25 de julho, reacendeu um debate necessário sobre a ocupação dos espaços esportivos e a justiça social. A decisão da CBF de interromper apenas as séries A e B do campeonato masculino, após um recuo em uma medida que paralisaria todo o calendário, expõe a resistência em priorizar o protagonismo das atletas em um cenário historicamente marcado por exclusões.
A trajetória do apagamento do futebol feminino
O futebol feminino no Brasil não nasceu em um vácuo, mas foi deliberadamente eclipsado por decisões políticas. Conforme detalhado no livro “Futebol Feminino no Brasil: entre festas, circos e subúrbios. Uma história social”, da pesquisadora Aira Bonfim, o esporte feminino atraía multidões entre 1915 e 1941, período que antecedeu uma proibição legal que durou décadas. Esse apagamento sistemático foi uma estratégia para garantir que o futebol masculino prosperasse sem concorrência.
A história da marginalização das mulheres no esporte é global. Um exemplo notório é a Copa do Mundo feminina realizada no México em 1971, que obteve grande sucesso de público, mas foi seguida por uma postura da FIFA de concentrar esforços e investimentos exclusivamente no futebol masculino. Esse contexto de exclusão é explorado no documentário “1971”, disponível na plataforma Netflix, que documenta como o direito das mulheres de praticar o esporte foi sequestrado por décadas.
O peso da dívida histórica e a resistência masculina
A resistência de parte do público masculino em aceitar a paralisação do calendário esportivo para a Copa feminina reflete uma visão que ignora a estrutura de opressão construída ao longo do século XX. Argumentar que a paralisação é desnecessária ou que o futebol feminino deve ser tratado como algo secundário é uma forma de perpetuar o machismo, tratando o esporte praticado por homens como a única realidade legítima.
Além disso, o futebol masculino depende, em diversos aspectos, do suporte invisível das mulheres. Desde o cuidado doméstico e emocional que sustenta a vida dos atletas até os sacrifícios feitos por suas mães para que pudessem alcançar o sucesso profissional, a dívida é profunda. Reconhecer essa contribuição e promover a equidade no calendário esportivo não é apenas um gesto de apoio, mas uma medida mínima de reparação histórica.
Justiça social e o futuro do esporte
Defender a paralisação total das atividades esportivas durante o mundial feminino é um ato de coerência com a justiça social. Assim como a sociedade interrompe suas rotinas para grandes eventos, o futebol deveria seguir o mesmo caminho. A infantilização da modalidade feminina e a falsa lógica de que o esporte masculino não deve ser “prejudicado” são ferramentas utilizadas para manter o status quo.
A verdadeira valorização do esporte passa pelo reconhecimento de que a história do futebol foi construída sobre o silenciamento das mulheres. A Copa do Mundo é uma oportunidade para corrigir essa conta e garantir que o campo de jogo seja, finalmente, um espaço de igualdade e respeito, onde o mérito e a paixão pelo esporte superem as barreiras de gênero impostas pelo passado.
Fonte: uol.com.br

































