A trajetória de Milton Cunha com o futebol brasileiro é marcada por uma profunda ressignificação. O renomado carnavalesco, que durante a infância na Ilha de Marajó via o esporte como um território de exclusão e masculinidade viril, encontrou no Club de Regatas Vasco da Gama um refúgio de identificação e orgulho. Para Cunha, a descoberta do caráter democrático e revolucionário do clube carioca foi o ponto de virada para superar o trauma da homofobia que permeava as arquibancadas.
A conexão com o Cruz-Maltino não foi imediata, mas consolidou-se através de pesquisas acadêmicas e da memória afetiva de seu avô. Ao mergulhar na história institucional do Vasco, o carnavalesco identificou um legado de luta contra o preconceito, incluindo o pioneirismo na inclusão de jogadores negros e posicionamentos sociais progressistas. Essa descoberta transformou sua visão sobre o esporte, que deixou de ser um ambiente hostil para se tornar um espaço de liberdade.
A infância marcada pela exclusão no esporte
Durante seus anos de formação, Milton Cunha sentia-se deslocado no ambiente esportivo. O futebol, frequentemente associado a uma performance de masculinidade rígida, era um terreno onde ele não se reconhecia. O carnavalesco relata que, na escola, evitava as aulas de educação física para não enfrentar a hostilidade de um ambiente que rotulava qualquer comportamento fora do padrão como um alvo de deboche.
O preconceito não era apenas estrutural, mas também verbal. Nas arquibancadas e transmissões, termos pejorativos eram utilizados como xingamentos comuns, o que afastava o jovem Milton do esporte. Para ele, o futebol era um território apartado, onde a homofobia servia como uma ferramenta de exclusão, empurrando para a margem todos que não se encaixavam no perfil de atleta esperado pela sociedade da época.
O despertar para a estética e a ginga do futebol
Apesar do distanciamento inicial, a percepção de Cunha sobre o jogo começou a mudar ao observar a arte presente no campo. Ao acompanhar a Copa do Mundo de 1970, ele passou a enxergar o futebol através de um prisma estético. A habilidade de jogadores como Garrincha e a genialidade de Pelé despertaram seu interesse, permitindo que ele fizesse conexões entre o esporte e a cultura, a antropologia e a sociologia.
Essa nova perspectiva ajudou a suavizar a barreira que o preconceito havia construído. Contudo, a entrega total à paixão pelo futebol ainda encontrava resistência devido ao comportamento das torcidas. Foi apenas na vida adulta, ao compreender a história do Vasco, que ele conseguiu alinhar sua identidade pessoal com a paixão pelo clube, encontrando no time uma representação de valores que ele considerava essenciais.
Vasco como símbolo de inclusão e resistência
A entrada definitiva de Milton Cunha no universo vascaíno ocorreu quando ele já tinha 18 anos. Ao visitar a Barreira do Vasco, comunidade vizinha a São Januário, o carnavalesco percebeu que o clube representava uma mistura vibrante do povo brasileiro. A história do Vasco, que ele define como uma “célula de liberdade”, tornou-se o alicerce para que ele se sentisse confortável em torcer abertamente pela equipe.
Nos últimos anos, o clube reforçou esse vínculo ao promover ações contra a homofobia, como o lançamento de camisas com as cores da bandeira LGBTQIA+. Para Cunha, esse posicionamento é fundamental para o futuro do futebol. Ele defende um esporte onde o talento seja o protagonista e que não utilize a identidade de gênero como sinônimo de ofensa, celebrando a diversidade como parte integrante da beleza do jogo. Mais informações podem ser acompanhadas pelo netvasco.com.br.
Fonte: netvasco.com.br

































