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Eleições presidenciais: por que a virada no segundo turno é um feito inédito no Brasil

Eleições presidenciais: por que a virada no segundo turno é um feito inédito no Brasil

O cenário político brasileiro, especialmente nas disputas presidenciais, revela um padrão histórico marcante: a ausência de viradas no segundo turno. Desde a redemocratização e a instituição do mecanismo de segundo turno em 1989, todos os candidatos que terminaram a primeira rodada na liderança consolidaram sua vitória na etapa final. Essa realidade impõe um desafio significativo a qualquer postulante que se encontre em desvantagem após o primeiro turno, como exemplificado pela situação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que, em um cenário hipotético para a eleição presidencial de 2026, terminou o primeiro turno com uma desvantagem de 2,2 milhões de votos em relação a Flávio Bolsonaro (PL), ou de 1,9 pontos percentuais. Além de ficar atrás, Lula ainda teria perdido 3,4 milhões de votos em relação ao primeiro turno de 2022.

A análise do histórico eleitoral, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostra que a máquina pública e um alto piso eleitoral podem não ser suficientes para alterar essa tendência. A dificuldade de reverter o resultado inicial se manifestou em todas as sete disputas presidenciais que tiveram segundo turno entre 1989 e 2018, estabelecendo uma regra que ainda não foi quebrada na corrida pelo Palácio do Planalto, mesmo com mobilizações intensas e estratégias de campanha focadas na recuperação.

A Regra Presidencial: Consolidação da Liderança no Segundo Turno

Desde a primeira eleição presidencial direta com segundo turno em 1989, o Brasil testemunhou uma consistência notável: o candidato que obteve a maior votação no primeiro turno sempre saiu vitorioso na rodada decisiva. Essa tendência foi observada em todas as disputas subsequentes, independentemente da margem inicial de vantagem. Em 1989, por exemplo, o então candidato Fernando Collor, que liderou o primeiro turno com uma diferença significativa, manteve sua posição e derrotou Lula, apesar do crescimento expressivo do petista entre os turnos.

O padrão se repetiu em pleitos posteriores. Em 2018, Jair Bolsonaro, que havia terminado o primeiro turno com uma vantagem considerável sobre Fernando Haddad, consolidou sua vitória no segundo turno. Mais recentemente, em 2022, o próprio Lula, então na oposição, liderou o primeiro turno contra o presidente Jair Bolsonaro e, apesar da intensa mobilização da máquina pública pelo então mandatário, confirmou sua eleição no segundo turno, na disputa mais apertada desde a redemocratização. Com esse resultado, Jair Bolsonaro se tornou o primeiro presidente no poder a perder uma disputa pela reeleição desde que o mecanismo foi instituído em 1998.

Desafios do PT e Outros Candidatos em Reverter o Cenário

O Partido dos Trabalhadores (PT) enfrentou a dificuldade de virar o jogo em segundos turnos presidenciais em pelo menos duas ocasiões. Em 1989, Lula terminou o primeiro turno com uma desvantagem de 13,3 pontos percentuais em relação a Fernando Collor. Embora tenha conseguido um aumento de 29,8 pontos percentuais em sua votação, não foi o suficiente para superar Collor, que venceu por seis pontos.

Em 2018, Fernando Haddad, que assumiu a candidatura petista, também se viu em uma situação desfavorável, ficando 16,75 pontos atrás de Jair Bolsonaro na primeira rodada. Apesar de um crescimento no segundo turno, Haddad ainda foi derrotado por pouco mais de dez pontos. Outros candidatos, como José Serra (em 2002 e 2010) e Geraldo Alckmin (em 2006), também perderam a rodada final para candidatos do PT por diferenças de dois dígitos, com Alckmin inclusive perdendo votos entre os turnos em 2006. Aécio Neves (em 2014) conseguiu diminuir a desvantagem em relação a Dilma Rousseff, mas ainda assim foi derrotado por apenas 3,2 pontos.

Viradas em Disputas Estaduais: Uma Exceção, Não a Regra

Embora as eleições presidenciais nunca tenham visto uma virada, o cenário é ligeiramente diferente nas disputas por governos estaduais, onde reviravoltas são raras, mas não inéditas. Entre 1990 e 2022, das 120 eleições estaduais que tiveram segundo turno, apenas 35 (aproximadamente 29% do total) registraram uma virada do candidato que estava em segundo lugar.

Alguns casos se tornaram emblemáticos. Em 1994, Eduardo Azeredo (PSDB) reverteu uma desvantagem de 21,1 pontos em Minas Gerais contra Hélio Costa (PP), impulsionado pelo sucesso do Plano Real e apoio político. Outro exemplo notável ocorreu em São Paulo, em 1990, quando Luiz Antônio Fleury (PMDB) superou Paulo Maluf (PDS), explorando a alta rejeição do adversário e angariando votos de eleitores antimalufistas. Em ciclos mais recentes, 2018 teve duas viradas (Rondônia e Santa Catarina) e 2022 registrou quatro (Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Sergipe).

Estratégias para Virar: O Caso Mário Covas e a Exploração da Rejeição

Entre as viradas estaduais, o caso do governador Mário Covas (PSDB) em São Paulo, na eleição de 1998, é frequentemente citado como um exemplo de estratégia bem-sucedida. Covas, que buscava a reeleição e tinha baixa aprovação (apenas 24% dos paulistas), chegou ao segundo turno 9,3 pontos atrás de Paulo Maluf (PPB) e com uma margem apertada sobre a terceira colocada.

Contrariando seus marqueteiros, Covas decidiu focar a campanha na comparação do caráter dos candidatos, transformando a disputa em um embate político e moral. Ele explorou as antigas ligações de Maluf com a ditadura, suas declarações controversas e o histórico de escândalos. Com o apoio de políticos do PT e do PSB, Covas conseguiu reverter a desvantagem e venceu Maluf por uma vantagem superior a 10 pontos. O marqueteiro de Maluf, Duda Mendonça, reconheceu a eficácia da tática, afirmando que “não foi o Covas que ganhou, mas Maluf que perdeu para Maluf”, destacando o papel crucial da rejeição do adversário na virada.

Fonte: terra.com.br

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