A presença de médicos em plataformas digitais tornou-se uma estratégia comum para atrair pacientes e construir autoridade no mercado. No entanto, um grupo de profissionais opta por seguir na contramão dessa tendência, mantendo-se deliberadamente afastado de redes como Instagram e TikTok. Para esses médicos, a medicina exige uma profundidade e uma ética que, muitas vezes, não encontram espaço na lógica dos algoritmos e dos vídeos curtos.
A escolha pelo distanciamento digital
O dermatologista Emerson Vicente Alves, de 53 anos, é um dos profissionais que prefere manter sua prática clínica longe do ambiente virtual. Sem perfis ativos, ele observa com ceticismo a pressão por uma exposição constante. Para ele, a ideia de que a capacitação técnica deve ser validada por métricas de engajamento é um equívoco que pode banalizar o exercício da profissão.
O médico ressalta que a medicina demanda uma sinceridade e uma proteção que dificilmente são transmitidas em conteúdos glamourizados. Em sua visão, a necessidade de produzir vídeos diários ou responder a centenas de perguntas pode comprometer a qualidade do atendimento e a relação direta com o paciente, que busca o médico, e não um serviço terceirizado de marketing.
Regulação e ética no ambiente virtual
O cenário de atuação médica nas redes sociais passou por mudanças significativas em março de 2024, quando o Conselho Federal de Medicina (CFM) estabeleceu novas normas para a publicidade da categoria. Antes dessa regulamentação específica, os profissionais baseavam-se apenas no Código de Ética Médica, o que gerava incertezas sobre limites e condutas aceitáveis.
Katiuscia Fogaça, médica e integrante da Comissão de Divulgação de Assuntos Médicos (Codame) do CRM-PR, aponta que a internet se consolidou como um cartão de visitas essencial. Contudo, a nova resolução buscou elucidar pontos controversos, proibindo promessas de resultados, a divulgação de informações falsas e a atribuição de eficácia privilegiada a determinados equipamentos ou técnicas.
O contraponto geracional e a busca por qualidade
Embora médicos mais jovens tendam a ter maior familiaridade com o ambiente digital, a adesão não é unânime. Emilio Abelama Neto, psiquiatra de 31 anos, exemplifica essa postura ao evitar o uso profissional das plataformas. Ele critica a lógica de vício inerente aos mecanismos das redes e prefere manter o contato com pacientes através de canais diretos, como o telefone ou o WhatsApp.
Para esses profissionais, a reputação construída através da formação acadêmica e da indicação direta entre pacientes ainda é um pilar sólido. Mesmo reconhecendo que a ausência digital pode limitar o alcance, eles defendem que a qualidade técnica e a ética profissional devem prevalecer sobre a necessidade de exposição comercial em um mercado cada vez mais competitivo.
Fonte: terra.com.br


































