O longa-metragem Coração de Lona, dirigido por Tuca Siqueira, marcou sua estreia internacional na competição oficial do Festival de Biarritz, na França. A obra mergulha no universo dos circos itinerantes do Nordeste brasileiro para narrar a trajetória de Inês, uma mulher que busca novos significados para a existência após a perda de um filho.
Filmado em Garanhuns, no interior de Pernambuco, o projeto nasceu de uma extensa pesquisa documental realizada pela diretora ao longo de duas décadas. O filme utiliza um circo real e seus integrantes para conferir autenticidade à narrativa, destacando a luta diária desses profissionais pela sobrevivência em um cenário de constantes transformações sociais e econômicas.
Sobrevivência e arte sob as lonas do Agreste
Para a diretora Tuca Siqueira, o filme é uma homenagem à capacidade de resistência dos artistas circenses. Em entrevista concedida em Biarritz no dia 28 de setembro de 2026, ela enfatizou que esses profissionais são “grandes resistentes do mundo”, vivendo um dia de cada vez para garantir o sustento básico.
A narrativa foca menos no espetáculo do picadeiro e mais na rotina de bastidores e na resiliência necessária para manter viva uma tradição secular. A produtora Rayssa Costa reforça que a escolha de trabalhar com um circo verdadeiro agregou valor humano à obra, permitindo que o público internacional conheça a realidade nua e crua do interior brasileiro.
Jornada de Inês entre o luto e a cura tradicional
A protagonista Inês conduz o espectador por uma jornada de autodescoberta que resgata práticas populares do Nordeste. Uma das passagens centrais do filme envolve o encontro com uma benzedeira, figura comum no imaginário regional, que utiliza elementos naturais para rituais de cura.
Essa conexão com o místico e o biológico é fundamental para a personagem processar seu luto. Segundo a cineasta, a força do corpo feminino e a persistência dos sonhos são os fios condutores que permitem a Inês seguir adiante, transformando sua dor em uma nova forma de caminhar pelo mundo.
Impacto dos parques eólicos na paisagem de Pernambuco
Além da temática cultural, Coração de Lona aborda as mudanças geográficas e sociais provocadas pela modernização. O filme retrata como a instalação de parques eólicos no agreste pernambucano alterou a vida das comunidades locais, trazendo novos ruídos e modificando o comportamento da fauna e a rotina dos moradores.
Embora a energia eólica seja uma alternativa sustentável, o longa não ignora os impactos cotidianos dessa transição energética. A mudança na paisagem serve como metáfora para o tempo que passa e para as adaptações forçadas que os personagens, assim como os circenses, precisam enfrentar para não desaparecerem.
Reconhecimento internacional e a estética do silêncio
A recepção em Biarritz é vista pela equipe como um marco para o audiovisual pernambucano. O filme se diferencia pelo uso de momentos contemplativos e pelo papel do vento como um personagem invisível, contrastando com o ritmo acelerado das produções contemporâneas.
Tuca Siqueira define a obra como um convite ao silêncio e à introspecção. Ao levar a cultura de Garanhuns para a Europa, o filme cumpre o desejo da protagonista de mostrar o mundo ao filho, cruzando fronteiras geográficas e emocionais para reafirmar a importância de nutrir os próprios sonhos.
Para mais informações sobre a produção audiovisual brasileira, acesse o portal da RFI.
Fonte: terra.com.br


































