No coração do litoral paulista, uma rivalidade centenária ecoa os laços históricos entre Portugal e Espanha, não apenas nos campos internacionais, mas também no futebol local. O “Clássico das Colônias”, disputado entre a Portuguesa Santista e o Jabaquara, transcende a esfera esportiva, representando a paixão e a identidade das comunidades ibéricas que se estabeleceram em Santos. Este confronto, que teve seu pontapé inicial há mais de um século, é um testemunho vivo da influência cultural e da persistência de tradições em terras brasileiras.
A história desses dois clubes se entrelaça com a própria formação da cidade e do esporte na região. O primeiro embate, ocorrido em 6 de julho de 1919, marcou o início de uma saga que reflete a dinâmica entre as nações-mãe. Enquanto o mundo se prepara para um novo capítulo da rivalidade entre as seleções de Portugal e Espanha em um palco global, a memória e a emoção do clássico santista continuam a pulsar, celebrando um legado que vai muito além das quatro linhas.
Origens e a Essência da Rivalidade Ibérica
A fundação dos clubes em Santos é um espelho da chegada e organização das comunidades portuguesa e espanhola na cidade. O Hespanha Foot Ball Club, precursor do atual Jabaquara, foi estabelecido em 15 de novembro de 1914 por um grupo de jornaleiros espanhóis. Seu nome original, “Hespanha”, remetia à antiga “Hispania” e, mais profundamente, à identidade cultural da Galícia, região de origem da maioria dos imigrantes espanhóis em Santos.
Três anos depois, em 20 de novembro de 1917, a Associação Atlética Portuguesa, carinhosamente conhecida como Briosa, surgiu por iniciativa de portugueses inspirados pela criação do clube espanhol. Ambos os clubes não são apenas agremiações esportivas, mas pilares de suas respectivas comunidades, mantendo vivas as tradições e a cultura de seus fundadores. O presidente do Jabaquara, José Dominguez Fernandez, conhecido como Pepe, e o presidente da Portuguesa Santista, Frederico Barreiros, destacam a importância dessas instituições na preservação da herança cultural ibérica em Santos.
Legados Marcantes no Futebol Nacional
A trajetória da Portuguesa Santista e do Jabaquara se confunde com a história do futebol brasileiro. Ambos os clubes foram figuras centrais na fundação da Federação Paulista de Futebol (FPF) em 1941, ao lado de outros gigantes do esporte. Eles não apenas participaram da construção do cenário futebolístico paulista, mas também contribuíram com talentos que marcaram época.
A Briosa teve o meia Argemiro convocado para a Copa do Mundo de 1938, enquanto o Jabuca revelou um dos maiores goleiros da história, Gylmar dos Santos Neves, bicampeão mundial com a seleção brasileira em 1958 e 1962. Além das glórias em campo, os clubes protagonizaram momentos de grande relevância social. A mudança do nome “Hespanha” para “Jabaquara” ocorreu em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, em resposta a um decreto do governo Getúlio Vargas que visava bens de países do Eixo, um movimento que também afetou clubes como Palmeiras e Cruzeiro.
Um episódio notável da Portuguesa Santista ocorreu em 1959, durante uma excursão à África do Sul. A Briosa recusou-se a jogar um amistoso na Cidade do Cabo após três de seus atletas negros serem impedidos de entrar em campo devido ao regime de Apartheid. Essa atitude corajosa, apoiada pelo então presidente Juscelino Kubitschek, representou a primeira manifestação oficial do Brasil contra a segregação racial e rendeu ao clube a honraria da “fita azul” por sua invencibilidade na sequência da viagem.
O Confronto Centenário: Retrospecto e Realidade Atual
No histórico de confrontos diretos, a Portuguesa Santista detém a vantagem sobre o Jabaquara, com 76 vitórias em 174 partidas, contra 53 triunfos do Jabuca e 45 empates. A maior parte desses duelos ocorreu na elite do Campeonato Paulista, evidenciando a relevância que o “Clássico das Colônias” já teve no cenário estadual. O último encontro entre os rivais, em 2016, os encontrou na quarta divisão do Estadual, mostrando as oscilações de suas trajetórias.
Atualmente, a Briosa celebra um momento de ascensão. Após um rebaixamento, o clube conquistou o título da Série A3 em 2026, garantindo seu retorno à segunda divisão de São Paulo para a temporada de 2027. Já o Jabaquara, que não disputa a elite desde 1964, encontra-se na Série A4, o penúltimo nível do futebol paulista. Apesar das diferenças nas divisões, a gestão do Jabaquara se orgulha de sua saúde financeira e dos investimentos em infraestrutura, como a construção de um centro de treinamento, conforme destacou o presidente Pepe. A Federação Paulista de Futebol continua a ser o órgão regulador que acompanha a trajetória de ambos os clubes.
A Paixão Pela Rivalidade Que Persiste
A rivalidade entre Portuguesa Santista e Jabaquara, enraizada nas origens de Portugal e Espanha, permanece viva e vibrante. Questionados sobre suas torcidas para o iminente confronto entre as seleções ibéricas na Copa do Mundo, os presidentes dos clubes não hesitaram em expressar suas lealdades. Frederico Barreiros, da Briosa, manifestou seu desejo de ver Portugal vitorioso, lembrando um triunfo anterior em torneio europeu e provocando amistosamente seu colega.
Por sua vez, Pepe, do Jabaquara, manteve-se fiel às suas raízes, prevendo uma vitória espanhola por 2 a 1 e reforçando o orgulho pela história da Espanha. Essa troca de farpas bem-humorada sublinha como a rivalidade, embora presente, é permeada por um profundo respeito e pela celebração de uma herança cultural compartilhada que enriquece o futebol e a vida em Santos.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br


































