O presidente Lula discursou na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em uma fala que ultrapassou os 20 minutos de duração. O momento de maior recepção positiva da plateia ocorreu quando o mandatário abordou a luta contra o feminicídio e a necessidade de maior inclusão das mulheres no mercado de trabalho. Apesar da repercussão, analistas apontam que a abordagem do governo sobre o tema ainda carece de profundidade e ações concretas.
Limites da representatividade e o papel do governo
Embora o presidente tenha pautado o combate à violência contra a mulher no cenário internacional, críticos argumentam que a estrutura do atual governo permanece majoritariamente masculina. A composição do círculo de conselheiros e a gestão de recursos de campanha seguem concentradas em mãos de homens, o que gera questionamentos sobre a coerência entre o discurso proferido na tribuna e a prática política cotidiana.
A resistência em nomear mulheres para o STF, sob a justificativa de não ceder a pautas identitárias, é vista por especialistas como uma contradição. O argumento ignora que o perfil predominante no Judiciário — composto por homens brancos, cisgêneros e heterossexuais — também carrega uma identidade específica que molda as decisões do Estado.
Trabalho reprodutivo e a invisibilidade econômica
Um ponto central ausente no debate governamental é a distinção entre trabalho produtivo e reprodutivo. A economia do cuidado, que engloba as tarefas domésticas realizadas majoritariamente por mulheres, permanece invisibilizada nas políticas públicas. Sem a devida valorização dessa carga horária, que ocorre ininterruptamente nos lares, a igualdade de gênero no mercado de trabalho torna-se uma meta de difícil alcance.
A disparidade salarial entre homens e mulheres que ocupam a mesma função ainda é uma realidade persistente. Para especialistas, o discurso oficial precisa evoluir para além da denúncia do feminicídio, integrando medidas estruturais que combatam o endividamento feminino e garantam o letramento feminista nas esferas de poder.
Expectativas para o próximo mandato
A relação entre o eleitorado feminino e a gestão atual é marcada por uma expectativa de cobrança rigorosa. O apoio à reeleição é condicionado à implementação de mudanças substantivas, como a paridade de gênero em ministérios e tribunais superiores. A demanda por um compromisso real com os direitos reprodutivos, incluindo o direito ao aborto, coloca o governo diante de um desafio político complexo.
A pressão por resultados concretos deve se intensificar a partir de 1 de janeiro de 2027. O movimento feminista sinaliza que não aceitará o uso da pauta de gênero apenas como estratégia eleitoral, exigindo que o discurso na ONU seja acompanhado por uma agenda de transformações estruturais profundas no Brasil.
Fonte: uol.com.br

































