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Juízes alemães alertam para riscos à independência do Ministério Público com avanço da ultradireita

Juízes alemães alertam para riscos à independência do Ministério Público com avanço da ultradireita

A associação oficial de juízes da Alemanha, a Deutscher Richterbund (DRB), manifestou preocupação com a atual estrutura do Ministério Público no país. A entidade solicitou ao governo federal o endurecimento da legislação para prevenir que governos estaduais exerçam influência indevida sobre processos criminais, uma vez que os ministérios públicos alemães são parte do Poder Executivo.

Este apelo surge em um cenário de ascensão do partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD), especialmente após uma expressiva vitória em Saxônia-Anhalt. Juristas temem que a tradição de moderação política no sistema possa ser comprometida, abrindo caminho para o abuso de poder por parte de extremistas no governo.

Preocupação com a influência política no Ministério Público

A principal inquietação da Deutscher Richterbund reside na possibilidade de que a AfD, cujo diretório estadual em Saxônia-Anhalt é classificado como “organização extremista de direita confirmada” desde 2023, possa direcionar investigações criminais para fins político-partidários. Há um receio generalizado no sistema judicial de que o partido possa, por exemplo, pressionar promotores a negligenciar casos envolvendo extremistas de direita.

Sven Rebehn, diretor-executivo da DRB, enfatizou a urgência de “impedir o uso indevido dos Ministérios Públicos na Alemanha para fins político-partidários”. Ele ressaltou que, embora exista uma tradição de moderação na emissão de instruções aos promotores, a lei atual permite a interferência das secretarias estaduais de Justiça até mesmo em procedimentos criminais individuais, sem oferecer proteção efetiva contra abusos.

O debate sobre a estrutura do sistema judicial alemão

Diferentemente de muitos países, na Alemanha, os promotores públicos estaduais e a polícia são subordinados ao Poder Executivo, sob a autoridade das secretarias estaduais do Interior e sujeitos à supervisão parlamentar. Essa dependência é vista por alguns juristas constitucionalistas como um princípio democrático, garantindo que a atuação dos promotores seja fiscalizada por uma instância eleita democraticamente.

No entanto, outros consideram esse mecanismo problemático, pois cria uma abertura para a influência política. As secretarias estaduais do Interior e o Ministério do Interior federal possuem o poder de emitir instruções a promotores em casos específicos, como a não divulgação de provas fornecidas por serviços de inteligência para proteger suas operações. O Departamento Federal para a Proteção da Constituição (BfV), órgão de inteligência subordinado ao Ministério do Interior, é frequentemente criticado pela AfD, que o considera politizado.

Propostas para fortalecer a autonomia e a transparência

Atualmente, não existe um mecanismo para revisar as instruções governamentais, o que é apontado como uma falha. Margarete Koppers, procuradora-geral de Berlim, alertou para o risco imediato: “O Estado de Direito fica ameaçado quando suas regras são abusadas politicamente”. Ela citou exemplos de países europeus, como Polônia e Hungria, onde governos populistas autoritários intervieram no sistema judicial, enfraquecendo as estruturas do Estado de Direito.

Tanto a DRB quanto Koppers defendem a revogação do direito das secretarias e do ministério de emitir instruções. Contudo, essa visão não é unânime. Gül Pinar, advogada criminalista de Hamburgo, reconhece o receio de que a ferramenta de instrução possa ser mal utilizada, mas argumenta que a solução não é a independência total dos promotores. Ela defende que a reforma é necessária, principalmente para que as instruções governamentais sejam documentadas.

Pinar argumenta que a documentação permitiria aos advogados verificar a validade legal das instruções e se elas extrapolam a autoridade. “Precisamos criar novos mecanismos para fiscalizar o que está acontecendo”, afirmou, “mas a solução não é tornar os promotores independentes.” Ela observa que, embora o direito de emitir instruções seja amplamente aceito como decorrente do princípio democrático, muitas vozes no Judiciário, incluindo juízes e promotores, clamam por um Ministério Público mais autônomo.

Contexto europeu e a visão do governo

A preocupação com a interferência política no judiciário não é exclusiva da Alemanha. Casos na Polônia, com o partido Lei e Justiça (PiS) tentando indicar juízes para o Tribunal Constitucional, e na Hungria, sob o governo de Viktor Orbán, que buscou intervir no sistema judicial, servem como alertas sobre os potenciais riscos à democracia e ao Estado de Direito.

Apesar dos apelos por mudança, o atual governo federal alemão não demonstrou disposição para alterar a legislação. O Ministério da Justiça alemão declarou que as regras existentes já oferecem salvaguardas suficientes, proibindo as secretarias de emitir instruções “ilegais” e os promotores de cumpri-las. Segundo o ministério, a vinculação dos promotores ao Poder Executivo é crucial para garantir a responsabilidade perante mecanismos de controle e a supervisão parlamentar.

Fonte: terra.com.br

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