A crescente demanda por infraestrutura de dados, impulsionada em grande parte pelo avanço da inteligência artificial, tem levado a uma expansão acelerada de data centers em todo o território dos Estados Unidos. Contudo, essa proliferação não ocorre sem resistência. Comunidades locais, preocupadas com os impactos ambientais, a saúde pública e a sobrecarga dos recursos energéticos, estão se mobilizando em protestos que ganham força em diversas regiões do país.
O caso do condado rural de Frederick, em Maryland, ilustra bem essa tensão. Inicialmente, a construção de um grande data center da Amazon não gerou grande preocupação. No entanto, a expansão do projeto em cerca de mil acres, invadindo áreas verdes e terras agrícolas sem consulta à comunidade, acendeu o alerta e motivou a ativista Elizabeth Bauer e outros moradores a iniciar manifestações contra a proximidade das obras a áreas residenciais.
Impactos ambientais e riscos à saúde pública
A construção e operação de data centers levantam sérias preocupações ambientais e de saúde. A ocupação de terras agrícolas de primeira qualidade e áreas verdes é um dos pontos de discórdia, como destacado por ativistas que defendem o uso adequado do solo.
Além da perda de áreas naturais, a proximidade dos canteiros de obras a residências tem sido associada a problemas como poeira e poluição, que podem agravar condições de saúde preexistentes, como a asma. A professora de bioestatística de Harvard, Francesca Dominici, aponta que a exposição a partículas finas, mesmo em níveis baixos, aumenta o risco de malformações congênitas, doenças respiratórias, cardiovasculares e neurocognitivas, além de mortes prematuras, ameaçando também a fauna e o crescimento de plantas.
Outro ponto crítico é o consumo massivo de água. Data centers podem consumir até 5 milhões de galões de água por dia, o equivalente ao abastecimento de uma cidade de 50 mil habitantes. Essa demanda é particularmente preocupante em regiões já afetadas por escassez hídrica, como o condado de Frederick, que enfrenta uma severa falta de chuvas.
Pressão sobre a infraestrutura energética e custos
A demanda energética dos data centers é colossal. Atualmente, eles representam 4,4% do consumo de energia dos EUA, mas projeções do banco Goldman Sachs indicam que esse percentual pode subir para 8,5% até o final de 2027, impulsionado pela inteligência artificial. Um único data center pode consumir o equivalente à eletricidade de 100 mil residências, e os novos projetos podem demandar até 20 vezes mais.
Essa alta demanda sobrecarrega a rede elétrica e leva à construção de novas linhas de transmissão, cujos custos são frequentemente repassados aos consumidores, resultando em aumentos significativos nas contas de luz. Em estados com alta concentração de data centers, os preços da eletricidade subiram 267% nos últimos cinco anos. A necessidade de suprir a demanda extra também pode levar ao uso de geradores a diesel, que, além de poluentes, representam riscos adicionais à saúde.
Desafios regulatórios e a voz das comunidades
A regulamentação da localização de data centers é, em grande parte, de responsabilidade municipal, mas muitos estados oferecem um ambiente regulatório que favorece o desenvolvimento rápido, muitas vezes ignorando a proximidade com áreas residenciais ou ecossistemas sensíveis. A professora de direito ambiental da Universidade da Pensilvânia, Hannah Wiseman, observa que algumas administrações locais optam por não definir regras claras de uso do solo, permitindo que as empresas atuem com poucas restrições.
Há também preocupações com a falta de transparência. Empresas de tecnologia frequentemente buscam acordos de confidencialidade com governos locais, impedindo que as comunidades compreendam a real magnitude dos projetos e o impacto do consumo de recursos. Em vez de consultar os moradores, as empresas trabalham diretamente com as autoridades municipais na elaboração de seus planos, e têm colaborado com governos estaduais para criar tarifas especiais de energia e restringir o poder de decisão das administrações locais.
Reações populares e perspectivas futuras
A insatisfação pública com a expansão desenfreada dos data centers é evidente. Uma pesquisa recente da Gallup revelou que 71% da população se opõe à implantação dessas estruturas em suas comunidades. Essa oposição tem gerado protestos em todo o país, exigindo ações de políticos de ambos os partidos.
Os protestos já começam a surtir efeito. Nova York se tornou o primeiro estado dos EUA a suspender a construção de novos data centers de grande porte por até um ano, e moratórias semelhantes foram propostas ou implementadas em outros estados e municípios. Além disso, algumas empresas de tecnologia têm demonstrado sinais de mudança. Em março, a Microsoft anunciou o fim dos acordos de confidencialidade com governos locais para o desenvolvimento de data centers, buscando maior confiança com as comunidades. A Meta, por sua vez, afirma estar testando o uso de concreto de baixo carbono em suas construções.
Especialistas como Francesca Dominici veem um caminho para o futuro que concilie avanço tecnológico com benefícios para a população, sugerindo avaliações científicas imparciais para minimizar os impactos. No condado de Frederick, apesar de um revés judicial, os ativistas continuam a lutar, evidenciando a persistência da sociedade civil em busca de um desenvolvimento mais equilibrado.
Fonte: terra.com.br


































