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Ucranianos na Flip 2026: escritores debatem idioma e identidade sob o impacto da guerra

Ucranianos na Flip 2026: escritores debatem idioma e identidade sob o impacto da guerra

A 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2026, foi palco de um debate profundo sobre os impactos da guerra na Ucrânia, focando em temas como linguagem, identidade e o processo de escrita em meio à devastação. Os autores ucranianos Maria Reva e Andrei Kurkov compartilharam suas perspectivas e experiências em uma mesa mediada por Laura Capelhuchnik, abordando os desafios de viver e criar sob a sombra de um conflito que já dura mais de quatro anos.

Ambos os escritores, cada um à sua maneira, transformaram suas vivências do conflito entre Rússia e Ucrânia em obras literárias. A discussão trouxe à tona as complexas relações entre a língua materna, a afiliação política e a resiliência cultural de um povo que enfrenta uma de suas maiores tragédias históricas.

A Experiência de Andrei Kurkov e o Diário de Guerra

Andrei Kurkov, romancista de 65 anos nascido na Rússia e criado na Ucrânia, vivenciou o início da invasão russa em 24 de fevereiro de 2022 diretamente de sua janela, acordando com o som de explosões. No dia seguinte, ele e sua esposa buscaram refúgio em uma cidade no oeste do país, próximo à fronteira, onde passaria quatro meses como deslocado, abrigando-se na casa de uma desconhecida e compartilhando espaço com outros fugitivos do conflito.

Durante esse período, Kurkov interrompeu sua produção ficcional, sentindo que “todos esqueceram o que eram naquele momento”. Ele iniciou um diário, inicialmente como uma forma de entender sua incapacidade de escrever ficção, percebendo que “sentir prazer [durante a guerra] parece algo imoral”. Seus registros diários, que documentavam a solidariedade e as pequenas histórias dos ucranianos, deram origem ao livro Ucrânia: Diário de Uma Guerra, publicado no Brasil pela Carambaia. O autor ressaltou a capacidade de resistência do povo, afirmando que “a Ucrânia sempre sobrevive” a suas muitas tragédias históricas.

O Idioma Russo e a Identidade Ucraniana

A mesa na Flip 2026 também aprofundou a complexa relação dos ucranianos com o idioma russo. Kurkov, fluente em ucraniano e inglês, mas que usa o russo no dia a dia, revelou ter sentido “vergonha do idioma russo” no início da invasão, chegando a querer “calar a boca”. Ele atribuiu a cultura ucraniana ser “parcialmente desconhecida do resto do mundo” à história imperial e à dominação soviética, que “escondeu” muito do país, resultando em grande parte da população, especialmente nas cidades maiores, sendo falante de russo.

Maria Reva, de 37 anos, também abordou a questão do idioma. Com o russo como língua materna, ela enfatizou a necessidade de separar a língua que se fala em casa da afiliação política. Reva, que vive em Vancouver, Canadá, desde os sete anos, descreveu a sensação de ter uma “realidade dividida em duas”, com familiares ainda residindo no sul da Ucrânia, vivenciando diretamente o conflito.

A Ficção de Maria Reva e a Inserção da Guerra na Arte

Maria Reva é autora do romance Extinção, publicado pela DBA, que narra a história de Yeva, uma cientista que, para financiar sua pesquisa com caracóis em extinção, trabalha como “noiva” em uma agência de casamentos internacionais. O plano original do livro, que envolvia um sequestro para expor a indústria de casamentos, foi drasticamente alterado pelos acontecimentos reais da guerra.

A autora confessou ter pausado a escrita ao início dos bombardeios em Kiev, questionando a relevância da ficção diante da realidade brutal. No entanto, ela decidiu integrar o conflito à narrativa, quebrando a quarta parede e convidando o leitor a refletir sobre a moralidade de transformar a dor da guerra em arte. “É moralmente errado transformar guerra em arte, transformar toda essa dor em arte? Queria levar o leitor para esse enigma comigo”, explicou Reva, transformando seu dilema pessoal em parte integrante da obra.

A Flip 2026, que se estendeu até domingo, 26, na cidade histórica fluminense, contou com a participação de diversos autores nacionais e internacionais, como Milton Hatoum, Katie Kitamura e Zadie Smith. As discussões sobre a Ucrânia, em particular, ofereceram uma janela para a complexidade humana e cultural em tempos de conflito, ressaltando a capacidade da literatura de dar voz a experiências difíceis e promover a reflexão. Para mais informações sobre o festival, visite Estadão.

Fonte: terra.com.br

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